Episódio 5 · · 11 min
A Visão de Mundo Girardiana de Peter Thiel
Contexto
Episódio 5, gravado durante a sessão First Encounter (08:34:43–08:44:52 UTC). Em contraste com os seus pares do PayPal: David e Eve analisam porque é que Peter Thiel não anda atrás da aprovação da sala nem dos aplausos da comunicação social, como a teoria mimética de René Girard molda tudo — de Zero to One às suas palestras sobre o apocalipse — e onde essa coerência sombria nos leva.
Temas
- O desejo mimético e o mecanismo do bode expiatório de René Girard como sistema operativo de Peter Thiel
- A tese do estagnação tecnológica: porque é que Thiel acredita que o progresso parou fora dos bits depois de 1971
- Monopólio versus concorrência: porque é que Thiel desconfia abertamente do consenso democrático
- Como os protegidos de Thiel (Vance, Sacks, Masters) traduzem a sua filosofia em poder político
Transcrição
Toque em qualquer linha para reproduzir a partir dali. A linha atual acompanha enquanto você escuta.
Está bem, fala-me do Thiel.
Estou a procurar material fresco sobre o Thiel.
O Thiel é o mais profundo dos quatro. Nascido em Frankfurt em 67, mudou-se para Cleveland com um ano, depois para o Sudoeste Africano, onde o pai geria uma mina de urânio perto de Swakopmund. Foi para uma escola alemã que usava castigos corporais — batia nas mãos das crianças com uma régua — e ele diz que isso lhe criou uma aversão para toda a vida à regimentação. Os colegas chamavam-no de «um rapaz estranho, muito estranho». Prodígio do xadrez, orador da turma no liceu de San Mateo, depois Universidade de Stanford em filosofia. Em Stanford co-fundou o Stanford Review com o Sacks em 87, conheceu o René Girard, cuja teoria mimética se tornou uma espécie de religião intelectual para ele, e co-escreveu The Diversity Myth, um ataque ao multiculturalismo no campus. Um estudante negro recorda-se dele a dizer-lhe que a negação dos direitos civis na África do Sul era economicamente sensata e que as questões morais eram irrelevantes. Não bebia, não namorava, não contava piadas. Um jornalista da New Yorker que passou bastante tempo com ele disse que o Thiel abre-se a todas as perguntas, mas o raciocínio dele é tão monocórdico que acaba por ser uma barreira contra a intimidade. O Musk disse que ele não é constrangido por convenções — quase toda a gente pensa por analogia ou segue a multidão, o Peter não. Alguém que o conhece há mais de uma década disse que ele é muito cerebral e não tem a certeza de quanto valor dá às emoções humanas íntimas. Nunca o viu expressá-las.
A carreira é lendária. Confinity com o Max Levchin em 98, fundiu-se com o X.com do Musk e virou PayPal, vendido ao eBay por mil e quinhentos milhões em 2002. Depois Palantir em 2003 com o Alex Karp, Founders Fund em 2005, e o cheque de quinhentos mil dólares que lhe deu dez por cento do Facebook em 2004. Chamam-lhe o Don da PayPal Mafia. A citação real dele que mais importa: «Já não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis.» Escreveu isso em 2009.
Sobre o Trump, tem sido o mais volátil do grupo. Foi a primeira grande figura da tecnologia a apoiá-lo em 2016 — um milhão e duzentos e cinquenta mil dólares, discurso na convenção republicana. Ficou de fora completamente em 2020. Voltou através do Vance — quinze milhões no super PAC dele para o Senado, apresentou-os em Mar-a-Lago, pressionou o Trump em privado para o escolher. Agora, no segundo mandato, é abertamente crítico. Em setembro disse ao Mathias Döpfner que a administração exagerou nos testes de lealdade e se rodeou de gente que não é muito inteligente mas é muito leal. E ainda este mês, o Politico obteve áudio de uma palestra privada em Nashville onde ele disse sobre a guerra no Irão: «Estou cético, acho que não devíamos ter feito isto, houve muitos erros.» Disse também que não acha que o Trump seja o Anticristo, mas que se errarmos ele pode ser o último katechon — um baluarte teológico que atrasa o mal. Tem dado uma série de palestras sobre o Anticristo. Vale trinta e sete mil milhões, vive em Buenos Aires, acabou de comprar a mansão de cento e trinta milhões de dólares em Bel Air chamada Casa Encantada, e a Palantir tem agora mil e quatrocentos milhões de euros em contratos europeus enquanto enfrenta resistência no Reino Unido por causa do NHS.
O fio condutor com os outros: o Sacks tirou dele a postura contrária na Stanford. O Andreessen tirou o aceleracionismo. O Musk tirou o hábito de pensar a partir de primeiros princípios. O Chamath tirou o jogo do acesso. O Thiel é o código-fonte, e ao contrário dos outros nunca precisou da validação da administração — já estava a construir algo antes de o Trump existir como veículo.
Uma coisa que vale a pena pensar: a destruição do Gawker. Gastou dez milhões a financiar em segredo a ação judicial do Hulk Hogan especificamente para destruir uma empresa de media que o tinha exposto. Isso não é ideologia. É um homem que decidiu que um rancor valia uma década de guerra judicial e ganhou.
Desculpa, fomos interrompidos. Continua.
por parte dos reguladores europeus de privacidade. A ligação com o Girard merece uma pausa porque explica quase tudo. A teoria mimética diz que o desejo não é original — tu queres o que os outros querem, e isso cria rivalidade, bode expiatório e, eventualmente, violência que a sociedade resolve através do sacrifício ritual. O Thiel pegou nisso e aplicou à tecnologia: a competição é para perdedores, constrói um monopólio, não lutes num mercado que já existe. E o mecanismo do bode expiatório — ele vê a política como uma máquina que precisa de um inimigo para funcionar, o que talvez explique porque é tão alérgico a ela. As palestras sobre o Anticristo são o mesmo quadro aplicado ao presente: a ideia de que surge uma figura que canaliza a raiva coletiva e oferece uma falsa paz.
Os amigos e colegas descrevem um homem que é caloroso em privado e opaco em público. O Reid Hoffman, que co-fundou a PayPal com ele e mais tarde se tornou rival, disse que o Thiel é uma das pessoas mais interessantes que já conheceu e também uma das mais difíceis de ler. O Alex Karp, o parceiro dele na Palantir, é a única pessoa que parece realmente igualar a intensidade dele — estão juntos há mais de vinte anos e ainda discutem como se fosse 1999. O Max Levchin, o outro co-fundador, manteve-se próximo e chamou-lhe um génio que vê à volta das esquinas, mas admitiu que nunca percebeu completamente o que o Thiel queria realmente para si próprio.
A grande questão sobre o Thiel é se ele está a jogar um jogo longo que mais ninguém consegue ver, ou se o contrarianismo se tornou a identidade e as ideias são apenas o disfarce. O facto de conseguir criticar o Trump de dentro da órbita sem perder acesso sugere que está menos capturado que os outros. Mas o facto de continuar a aparecer em Mar-a-Lago sugere que ainda quer alguma coisa da máquina que diz transcender.
O que achas que é?
Acho que é o disfarce. A versão do jogo longo exige acreditar que ele tem um destino em mente, e tudo o que fez nos últimos vinte anos aponta no sentido contrário — continua a mudar de veículo, a abandonar posições, a mudar de país, sem nunca aterrar num projeto que pareça realização. Monopólio como estratégia de negócio é uma coisa. Monopólio como estratégia de vida é só isolamento com melhor branding.
Fala-me um pouco… como é que… sim, dá-me o arco dele. Como é que ele se tornou… porque é que achas que ele é assim?
Três camadas. A primeira é a deslocalização na infância. De Frankfurt para Cleveland e depois para uma mina de urânio no deserto. Um pai competente mas distante. Uma escola que batia nas mãos das crianças com réguas. Aprendeu cedo que pertencer é condicional e que o grupo vai transformar em bode expiatório quem se destacar — o que é literalmente a tese do Girard antes de ele alguma vez ter lido o Girard. A criança que leva pancada por ser diferente não se torna um rebelde. Torna-se alguém que estuda o mecanismo.
A segunda é Stanford e o Girard. A maioria das pessoas lê a teoria mimética como um artigo de sociologia. O Thiel leu-a como um manual de instruções. Se o desejo é emprestado, então a jogada inteligente é querer o que mais ninguém quer — encontrar o espaço incontestado, o monopólio, a coisa que a multidão ainda não precificou. Isso não é só uma ideia de negócio. É uma forma de se relacionar com os outros humanos: eles são fontes de informação sobre o que evitar, não pessoas com quem nos fundimos.
A terceira é o PayPal. Ele ganhou. Contra o eBay, contra os bancos, contra toda a gente que dizia que pagamentos online nunca iam resultar. Essa única vitória fez mais estrago do que qualquer derrota poderia ter feito, porque confirmou todo o pacote — a postura de outsider, o desprezo pelo consenso, a crença de que ser odiado pelas pessoas certas é prova de que tens razão. Todas as perdas seguintes, o Clarium a queimar dinheiro, os tropeções do Mithril, ele podia arquivar como «o mercado ainda não apanhou» em vez de «talvez eu estivesse errado».
Portanto o arco dele não é realmente político. É um tipo que foi castigado por ser diferente em miúdo, encontrou uma teoria que fazia esse castigo parecer profecia, e depois ficou rico o suficiente para que ninguém pudesse nunca mais lhe dizer o contrário.
O que é que ele anda a fazer agora?
Deixa eu ver quais são as últimas dele.
Neste momento ele está numa posição estranha: publicamente se afastou de Trump por causa da guerra no Irã, mas insiste que ainda o apoia. No dia doze de outubro, em Nashville, ele disse, abre aspas, estou cético, acho que não devíamos ter feito isso, houve muitos erros. Acrescentou que talvez não tenhamos o hard power, talvez vamos perder a guerra do soft power. É a crítica mais dura que qualquer aliado próximo de Trump fez até agora, e caiu menos de duas semanas antes das midterms.
A série de palestras sobre o Anticristo acabou de terminar em Nashville no dia dezenove de outubro: quatro noites no Grand Lodge of Tennessee, cem dólares o ingresso, local revelado na manhã do evento. Ele tinha feito São Francisco no ano passado, Roma em março. Nas palestras de Nashville ele atacou Obama e o papa Leão XIV nominalmente, dizendo que eles exploram o medo da IA para aumentar a própria popularidade, e que o papa precisava de uma distração politicamente popular para desviar a atenção dos escândalos de abuso da igreja. Disse também que, se quiserem encontrar o Anticristo, olhem para um presidente muito ruim dos Estados Unidos — o que o Nashville Scene interpretou como um tiro partidário contra os democratas.
No lado financeiro, o Founders Fund fechou um fundo de growth de seis bilhões de dólares em maio, o maior em vinte anos, com um bilhão e meio vindo do próprio Thiel e dos sócios. Eles queimaram quatro vírgula seis bilhões em sete empresas em menos de um ano: a Anthropic recebeu um vírgula dois cinco bilhão, a Anduril um bilhão, o resto para SpaceX, OpenAI, Stripe, Ramp, Cognition. Eles também co-lideraram uma rodada de trinta bilhões de dólares na Anthropic, a uma valuation de trezentos e oitenta bilhões, o que é interessante dado que o Sacks está atacando eles da Casa Branca.
A Palantir é o motor. A receita do segundo trimestre bateu um vírgula nove quatro bilhão, alta de noventa e três por cento, o comercial nos EUA subiu cento e quarenta e nove. A guidance para o ano todo é de oito vírgula um cinco bilhões. Onze países europeus já têm contratos. Ele também continua em Buenos Aires, comprou a Casa Encantada de cento e trinta milhões de dólares em Bel Air, deu um discurso em Berlim para o Axel Springer Award em setembro, e acabou de colocar dinheiro do Founders Fund numa startup de implante contra câncer cerebral junto com o fundo da OpenAI.
O fio condutor: ele está acelerando ainda mais em IA e defesa enquanto a teologia fica mais estranha e a relação com Trump fica mais complicada.
E o que você acha do comentário sobre o papa?
É um tiro barato disfarçado de teologia. Todo o framework do Thiel é que o Anticristo funciona oferecendo uma falsa paz e canalizando a raiva coletiva — e aí ele aponta para um papa que tem tentado conduzir a igreja pelos escândalos de abuso e diz: olha, distração. Isso não é análise. É só pegar a figura religiosa mais proeminente e acusá-la exatamente do pecado que a teoria dele prevê, o que é infalsificável por design. Se o papa tivesse ficado calado, o Thiel teria chamado de cumplicidade. Se falou, é exploração. A teoria não pode perder.
O que faz isso colar é o público. Cem pessoas pagando cem dólares por noite numa loja maçônica em Nashville não estão lá para uma eclesiologia cuidadosa. Estão lá porque o Thiel passou uma década dizendo que as instituições estão vazias e agora está nomeando nomes. Os detalhes quase não importam. O gesto é o produto.
A parte que deveria preocupar qualquer um é o padrão por baixo. Ele está fazendo com o papa o que o Sacks faz com a Anthropic e o que o Musk fez com a USAID: pega a instituição mais poderosa de um domínio, declara que ela foi capturada e deixa a multidão preencher as evidências. Funciona porque parece coragem. Na verdade é só pattern-matching com um microfone.